Os pais e educadores se tornam os inimigos naturais do pensador à medida em que são portadores de hábitos e costumes, os quais retransmitem em sua tarefa de educar. O aprendiz de pensador que não consegue pensar por si só, que não se distância dos hábitos e dos costumes, nunca será de fato um pensador, já que sempre estará pensando com as ideias dos outros. Em algum ponto de sua obra, nessa mesma perspectiva, Nietzsche aconselha a se distanciar dos livros, para que o pensador passe a pensar por si mesmo e deixe por tempos de usar sua mente para apenas reproduzir aquilo que seus autores pensaram. Liberte-se dos livros é uma sentença que contraria o senso comum - diz muito sobre o filosofar com um martelo, característica de Nietzsche. Claro que o filósofo faz referências às pessoas ditas eruditas que se tornam enciclopédias ambulantes, que não perdem a oportunidade de discorrer sobre seus conhecimentos, mas que não acrescentam ideias inovadoras: e isso ele combate.
267 - Não há educadores*
"Como pensador, não se deveria falar senão de educação de si. A educação da juventude dirigida pelos outros é, seja uma experiência realizada em qualquer coisa de desconhecido e de incognoscível, seja um nivelamento por princípio para tornar novo o ser, qualquer que seja, conforme aos hábitos e aos costumes reinantes: é, nos dois casos, alguma coisa que é indigna do pensador, é a obra dos pais e dos pedagogos que um um homem leal e audacioso chamou de nossos inimigos naturais - somos educados há muito tempo segundo as opiniões do mundo, acabamos um dia por nos descobrirmos a nós mesmos; então começa a tarefa do pensador e é tempo de pedir sua ajuda - não a título de educador, mas como aquele que se educou a si mesmo e tem experiência".
*Obra: O viajante e sua sombra, Friedrich Wilhelm Nietzsche, Editora Escala, 2007, páginas 124-125.